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Una década para recordar
Poesías por Rafael Gallardo - El seminarista de los ojos negros

O seminarista dos olhos negros

Miguel Ramos Carrión

Desde a janela de um casucho velho
aberta em verão, fechada em inverno
por vidros verdosos e chumbos espesos,
uma salmantina de loiro cabelo
e olhos que parecem pedaços de céu,
mintas a costura mistura com o rezo,
vê todas as tardes passar em silêncio
os seminaristas que vão de passeio.

Baixa a cabeça, sem erguir o corpo,
marcham em duas bichas pausados e austeros,
sem mais nota alegre sobre o traje negro
que a bolsa vermelha que cinge seu pescoço,
e que pelas costas quase roza o solo.

Um seminarista, entre todos eles,
marcha sempre erguido, com ar resolvido.
A negra sotana desenha seu corpo
gallardo e airoso, flexível e esbelto.
Ele, só a hurtadillas e com o receio
de que suas miradas observem os clérigos,
desde que na rua vislumbra ao longe
à salmantina de loiro cabelo
olha-a muito fixo, com olhar intenso.
E sempre que passa deixa-lhe a lembrança
daquela mirada de seus olhos negros.
Monótono e demoro vai passando o tempo
e morre o estío e o outono depois,
e vêm as tardes plomizas de inverno.

Desde a janela do casucho velho
sempre sozinha e triste; rezando e costurando
uma salmantina de loiro cabelo
vê todas as tardes passar em silêncio
os seminaristas que vão de passeio.

Mas não vê a todos: vê só a um deles,
seu seminarista dos olhos negros;
a cada vez que passa gallardo e esbelto,
observa a menina que pede aquele corpo
marciales arreos.

Quando nela fixa seus olhos abertos
com vivas e audazes miradas de fogo,
parece dizê-la: —Quero-te!, quero-te!,
Eu não tenho de ser cura, eu não posso o ser!
Se eu não sou teu, me morro, me morro!
À menina então oprime-se-lhe o peito,
o labor suspende e esquece os rezos,
e já vive só em seu pensamento
o seminarista dos olhos negros.

Numa lluviosa manhã de inverno
a menina que alegre saltava do leito,
ouviu tristes cánticos e fúnebres rezos;
pela estreita rua passava um enterro.

Um seminarista sem dúvida era o morto;
pois, quatro, levavam em ombros o caixão,
com a bolsa vermelha por cume coberto,
e sobre a bolsa, o bonete negro.
Com suas vozes roucas cantavam os clérigos
os seminaristas iam em silêncio
sempre em duas bichas para o cemitério
como pelas tardes ao ir de passeio.

A menina agoniada olhava o cortejo
conhece-os a todos a força dos ver...
tão só, tão só faltava entre eles...
o seminarista dos olhos negros.

Correndo nos anos, passou muito tempo...
e lá na janela do casucho velho,
uma pobre idosa de brancos cabelos,
com a tez rugosa e encorvado o corpo,
enquanto a costura mistura com o rezo,
vê todas as tardes passar em silêncio
os seminaristas que vão de passeio.

O labor suspende, olha-os, e ao vê-los
seus olhos azuis já tristes e morridos
vertem silenciosas lágrimas de gelo.

Sozinha, velha e triste, ainda guarda a lembrança
do seminarista dos olhos negros...

Biografia Miguel Ramos Carrión
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